Agora Escolha

– Alô! Sim? Oi? Está lá?

Já tinha, há que séculos, eliminado o contacto, bloqueado o número, cortado a linha, por isso, espantei-me com esta ligação imprevista, assustadora e insistente:

– Está? Sim? Alô! Alô? Oi!!

Não respondi. Não respondo. Não sei o que dizer. Nem quero dizer nada muito menos ouvir. O que é que quer de mim? É desconfortável e enervante, efervescente.

– Estou? Estou?!

Não, não estou para isto, não estou para ti, faz de conta que morri mortinha por te responder e morre de vez também, rest in peace, amén, no inferno de onde não devias ter saído e onde nunca devia ter caído. A minha irritação encarnada era tanta que o fumo que me saía pelos ouvidos chegou em nebulosa ao lado de lá.

– Estou? Cof-coff! Eu sei que estás aí.

Olhei para o telefone de frente e dei ao indicador o indicativo do verbo desligar. Não obedeceu. Um acto falhado, um erro, uma escolha de consciência não assumida, consumada pelo desejo de consumir a linha com intensas labaredas de todas as cores vivas.

Chamada a responder, neste momento de máxima escolha, por um fio telefónico, uma corda bamba de emoções instantâneas a atender o repetitivo. Que liga dura este jogo de perdição!

– Está lá? Alô? Sim? Está?

Por fim, enchi de AR os pulmões e berrei com bafo violento de dragão:

– NAAAÃO!

E foi assim, mais um fim de uma fixação (ficção, ficção!) de Vénus retrógrada em Escorpião.

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Se quiseres ver episódios teus no cristalino do olho que é o mapa astrológico, eis o meu número:

91 433 01 8 (só falta 1)

Agora escolha – liga já!