Nem sempre parar é morrer. Pode ser via para reconhecer. O Marte de cada um, o herói, comecou a descer o vale profundo, há umas semanas, para o confronto com o seu monstro do medo que ainda não tinha sido derrotado. Marte não desce mais do que isto. Está quase, quase a ficar directo, mas para já ainda está estacionário. Poderá estar paralisado, a tremer, em pânico… é legitimo… Afinal não é todos os dias, nem sequer todos os anos que o herói dá de caras com um monstro antigo. Mas, para mim, Marte está parado …de tão estupefacto…
Vi o monstro ao longe. “Tem pêlos, provavelmente é muito mau” – pensei. Tomei uma garrafa de coragem líquida e avancei determinada, de espada em riste na mão direita e o escudo na esquerda, bem alto, só se me viam os olhos esbugalhados de terror e vigilância. Eis que cheguei muito perto; já lhe sentia o cheiro a testosterona e o resfolegar ruidoso, quente e húmido. Espreitei rapidamente por cima do escudo com cara de má (que é sempre uma armadura a mais em qualquer situação de guerra) e ficamos finalmente cara-a-cara. Foi então que parei, reparei, estacionei e … Ri!
O montro ainda fez “Booo” em inglês (o que dá outro élan à coisa) só que… tinha um ar fofinho! Era grande, mas o tamanho não lhe tirava o aspecto indefeso, de orfão desejoso de um colo quente. “Era isto, santo Deus!? Era disto que tinha tanto medo?? Foi para isto que desci ao campo de batalha armada até aos destes?? A sério?? Hahahahahaha! ”
Ri-me da minha expectativa medonha, tão distorcida e tão distante da minha actual realidade. Sorri-lhe, pisquei-lhe o olho e ainda lhe dei um beijinho. Decidi não o matar, não havia motivo nenhum para fazer mais sangue. Antes preferi tomar conta dele (já que é meu), tirá-lo do fundo do vale, levá-lo comigo, encosta acima, na subida dos próximos tempos e mostrá-lo (coisa feia mais linda!) a quem quiser ver.
E ainda que a subida seja dura (pelo menos com a inércia do arranque primeiro) valerá bem a vista, lá de cima, a dois, pois Marte em “Poderoso” é muito mais que mero inteiro.